sábado, 6 de dezembro de 2014

dos diários

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eu hei-de voltar
na saudade de setembro
e direi adeus aos pássaros
enquanto as árvores se deitam.

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foi em setembro
quando os pássaros se levantavam
e seguiam o céu
na sua saudade do sul

o mar
o mar mentia nos meus dias
e tu passavas
o teu sorriso primeiro
depois o teu olhar
mais tarde a tua vida

e as palavras sublimes!
qualquer palavra uma desconhecida ternura
e o meu silêncio caía
caía

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havia cantos de glória
naquele quarto sombrio
e um recado da eternidade
deixado
no mesmo canto
onde te ouvia

tenho a polaróide
do teu sorriso mais eterno
tenho num vidro antigo
pedaços de um dia de chuva
poeira daquele segundo
em que disseste “amo-te”

ainda saio para a rua
com essa parede branca nos olhos
o mundo ainda cabe todo
na mancha de tinta
que a tua mão lá deixou



terça-feira, 25 de novembro de 2014

facas sobre a água



facas sobre a água
flores de traição
rasgadas sobre a luz
abrem janelas
numa escuridão qualquer
por onde escapam
o desejo e a esperança
para se perderem
na pele de espuma
do mar

é assim o corpo
é assim o tempo



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

as árvores


as árvores olham-me
carregadas de sabedoria e
sentimento

a sua sombra arrasta-me
para mais longe
do que eu sei ir

estou só
e o céu desfaz-se
em mil sinais de consolação



domingo, 23 de novembro de 2014

dos diários




Deixei de datar as notas do meu diário. Convenço-me assim de que, por uma vez, sou eu que levo a melhor sobre o tempo.




sábado, 1 de novembro de 2014

os livros mentem



Há uma passagem nas “Memórias de Adriano” em que ele diz que a palavra escrita o ensinou a escutar a voz humana, tanto como a atitude imóvel das estátuas o ensinou a apreciar os gestos; e que só posteriormente, a vida o fez compreender os livros. Mas, diz ele, ainda os mais sinceros, os livros mentem.

E aponta as razões dessa mentira conforme se trate da escrita dum filósofo, dum historiador, dum narrador ou dum poeta. Diz Adriano que os livros dos poetas mentem porque nos transportam a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais doce que este que nos é dado, por isso mesmo um mundo diferente e praticamente inabitável.

Trago aqui esta nota porque partilho dessa visão de que só a vida nos faz compreender os livros.

Penso que é neste “mundo praticamente inabitável” que está a origem de toda a criação poética. Defendo que a poesia vive dessa esperança mínima de trazer a diferença para a realidade e de ir ganhando ar fresco ao irrespirável espaço da utopia, habitando-o.
Aos poetas, visionários ancestrais, cabe a missão de reescrever o mundo, usando a palavra como um buril. É um ofício antigo e sem fim que a alguns castiga com a eternidade, a outros com a loucura. Eles são como o pássaro do mineiro, vão à frente, muito à frente e morrem quando o mundo se fecha à beleza. 
 
Os livros mentem, sim, mas apenas porque serão sempre lugar de horizontes. Os livros são o lugar solene onde a nossa palavra, ou a nossa alma, pode ficar à espera de ser olhada e eu não tenho dúvidas de que quem partilha a alma exerce o mais alto grau da sabedoria.

O que vos dou neste livro são horizontes, cumprindo uma aspiração de juventude: que a vida faça de mim um velho lúcido, tranquilo e com um pouco de sabedoria.


Porto, 19 de Julho de 2014


gil t. sousa



(Este texto foi escrito para a apresentação do meu livro água-forte. Fica aqui à laia de manifesto.)